Querer que dê certo, a gente sempre quer: a nova turma na escola, o
novo amigo, o vestibular, o primeiro emprego, o casamento, o filho, a
decisão inescapável, o necessário e o fútil, a segurança e a aventura.
Os planos do novo ano. Os desejos bons e também os menos nobres, de
que alguém se ferre, que para ele dê errado – porque não somos santos. A
construção da vida, tanta coisa. As pessoas queridas. O livro, o carro,
o amor ou até a separação. A sobrevivência depois da morte de alguém
especial.
Que dê certo também o que nem é pessoal mas a todos atinge: o país, a
democracia, a qualidade de vida, a dignidade de todos, a redução da
desigualdade, o nível do ensino, da saúde, os cuidados com a seca, com a
enchente, com os deslizamentos, com os horrores da saúde pública, com o
excesso de faculdades pelo país, a insensatez das cotas que promovem a
discriminação e o preconceito, e marcam como incompetentes os que se
beneficiam delas.
Que às vezes nem têm outro jeito, pois nivelamos por baixo:
facilitamos as coisas em lugar de dar aos que precisam melhores
condições, condições ótimas: isso seria o sensato. Mas somos insensatos;
então, torcemos para que, apesar de tudo, dê certo.
Agora nos oferecem mais planos, projetos, pacotes, para que,
finalmente, o país deslanche do seu marasmo, que pacotes anteriores não
sacudiram direito. Eu quero muito que deem certo esses novos projetos.
Estradas e ferrovias, para começar, pois o nosso transporte é mais um
inqualificável fator do nosso inqualificável atraso. Portos e
aeroportos.
Espero que se incluam também saúde, ensino, segurança, que andamos
cada vez mais violentos e todas as notícias negativas, que são muitas,
saem mundo afora preparando os espíritos para 2016. Que sejam projetos
inteligentes e possíveis; que tenham à frente gente supercompetente,
embora competência seja mercadoria rara por aqui.
Há gente demais improvisando, viramos o país do improviso, do
puxadinho, do jeitinho, do palpite? Os muito competentes podem nem
querer certos cargos e encargos. Sobretudo se ligados à política: aí
tudo se complica, os jogos de poder, os postos dados por interesse, não
pelo preparo e capacidade, tanta trama que nem conhecemos direito, mas
de que sabemos o suficiente para ficar de cabelos em pé.
Ou melhor é não saber, assim a gente se salvaria? Seja como for, eu,
que me afasto da política o mais que posso – para preservar alguma
qualidade de vida, de objetividade e de harmonia comigo e com o mundo –,
eu, que não pertenço a nenhum partido porque são demasiados e confusos,
porque brotam feito cogumelos e são mutantes como camaleões nervosos,
eu mesmo assim me interesso extraordinariamente por este país.
A ele dei filhos e netos, seres humanos decentes e bons, desses que
como tantos outros são o sal da terra e para isso não precisam ter poder
nem altos cargos: basta que existam e sejam como são. A este país
Brasil dei e darei trabalhos e décadas de vida. Dele muito recebi
também, nele quero sempre viver, e morrer. Nele estou por escolha
consciente todos os dias de minha vida. Então, quero muito que os novos
projetos deem certo, com tudo o que contiverem de bom (o medíocre que
neles exista faz parte de sermos humanos).
Resta saber o que é “dar certo”. Um plano com bons projetos é um
comecinho. Predominarem boas intenções será dar um pouquinho certo (tudo
em diminutivos por enquanto). Ficar em mãos experientes e competentes,
sem amadorismo, será dar bastante certo. Passar da utopia para entrar na
realidade, com seriedade, seria ou será dar supercerto.
Se tudo sair medianinho, já vai ser um avanço. Chegar a termo será
quase um milagre: a gente não vê muito disso por aqui. Não acredito
cegamente, pelo que temos experimentado de grandes palavras, grandes
planos – e grande esquecimento.